It’s Gone
I. Há quem afirme ser impossível, Alessandro, mas quanto mais o tempo nos sobrevoa, quanto mais se nos adianta e converte, mais acredito que uma alma feita de poesia sobrevive bem com uma polegada de espaço, tão somente, um pedaço de tinta, uma folha em branco que miraculosamente se renova em cada palavra, em cada gesto só… e há quem não concorde, e até quem me possa encontrar estranheza, mas à alma estranha de Ricardo tudo isto morreu e sobreviveu; alimentou-se, assim aparenta, de sangue não renovado pelo sabor dos alimentos, mas dos momentos singulares que escapam ao olhar dos comuns mortais e imortais… senão, escuta Alessandro, o que Ricardo escrevia, enquanto escutava o Tom Waits a declamar o Hope I Don’t Fall in Love With You, diz: “ risquei no meu caderno castanho, inútil quase, “o longe também é um lugar”, sublinhei, risquei, tracei em vincos e sulcos fundos, enfunados pelo vento mais interior e sereno possível, como se a palavra solta, um pedaço de pensamento abandonado, quase, num banco de jardim ou no balcão duma pastelaria, pudesse transformar-se em parte das mais sagradas escrituras; as minhas, as tuas, as palavras que o meu sangue comunga com o teu, em corações diferentes, mas batendo de forma semelhante.” – o que há aqui que se possa afirmar de impossível, Alessandro? O distante que se confunde com o infinito, por semelhança com todas as possibilidades do mundo? O lugar que permanece, simples, no mais simples grau de pureza, no mais intenso, na mais desconhecida via da questão, a mais ingrata, a que não tem resposta? – “Passeávamos pelas avenidas que faziam questão de se iluminar para que observássemos atentamente cada montra, cada manequim que sorria à nossa passagem, cada sapato que se imobilizava no passo dos perdidos, enquanto nós, em viagem de estudo pelo palco da vida, por essa parada em movimento, observávamos os efeitos, os estudos prévios, a estrutura e composição comparada, de cada verso, de cada rima, de cada híbrida passagem da folha em branco, aguardando a resolução final, alguns pedaços de palavras que rascunhei nos cantos das páginas brancas.

No centro fazia corações enormes, vermelhos com setas, enormes, o teu nome e o meu nome e achavas graça e sentia novamente como se fossem catorze, os anos da minha idade e saltava para um ponto negro num ponto final negro, triste alegre a fugir com uma caneta, um pormenor aparentemente inofensivo, num guião de cinema barato, falso ou verdadeiro, tanto dá, e de tantos cigarros fumar, a neblina trazia-me recordações simples de coisas recentes, como que a de reprimir o desejo de querer abraçar-te a tempo inteiro; números, números, como se fora possível com uma caneta, um pedaço de papel e um coração exausto, terminar guerras que duram há dez, mil, cem anos, de erros, erros em números, que mergulham discretos nos ponteiros do relógio para que possa acontecer o amanhã, a manhã seguinte. Afinal, o longe é bem capaz de ser um lugar, habitado por gente como nós, como tu, como eu que adoramo-te…”

II. O que poderei acrescentar, senão a minúcia do músico em busca da nota imperfeita, o detective que sabe o resultado do relatório final, mas rasga-o à última da hora, inviabilizando não o crime, mas a vitima … pois que a vida tem que prosseguir, não o posso impedir: “eu, no escuro, sinto o teu olhar, do teu palco, a procurar um ponto, o olhar fixo de quem no palco centro dos mundos, sabe que não vai esquecer a deixa, procuras os meus olhos e eu faço-te sinal com uma tosse sumida, discreta, código, santo à espera de senha, porque sei pelos meus olhos que no final aplaudirei desorientado, como a água no redemoinho, como o marfim no palácio abandonado, aplaudirei fora de tempo e em tempo incerto nem saberei em que fila estarei para observar cada passo teu, gesto teu, cada súplica dessa garbosa pele de cobra que deixarás no palco a adormecer nos tempos, aplaudo, aplaudo as estrelas, o espaço mais celeste dentro de ti, a mais cadente das tuas estrelas que deixarás para trás, como ondas que não gostam de falecer na praia, na sua ingrata morte, quase cadente e tão ilógicas como os meus dedos que se entrelaçam, aguardando o tempo certo para aplaudir a palavra, a vida que brinca de ilusionista no palco, na tua pele, os meus dedos, que não conseguem agora tocar os teus cabelos, mas as tuas palavras sim; afago cada uma delas como se tivessem sido inventadas agora mesmo, por ti, para mim, para um infinito tão exclusivo, tão ilógico, tão sem margem… aplaudo, desorientado, ignorando que alguém teve que lutar com o mundo inteiro, guerras de cem anos, sem o instante, para escrever essas palavras que declamas, cantas e me enevoam; agora são tuas ou minhas, mas já sangraram noutro corpo, esquecido há muito…”
Colmeal Velho, 29 de Janeiro
|fotografias de Jenn (Atomic Turquoise), com autorização da autora
Images by Jenn (Atomic Turquoise), with kind permission|
All the best Jenn, thanks a lot for all
Images by Jenn (Atomic Turquoise), with kind permission|
All the best Jenn, thanks a lot for all

devorei este texto e devorava mais uns quantos. gostei muito :)
ResponderEliminarPalavras têm uma origem e depois, vários donos.
ResponderEliminarQue também sangram.
Muito poético. Vai directo ao coração.
ResponderEliminarLeonardo, estou passando para agradecer sua visita nas entrelinhas, e dizer que não poderia deixar de tomar parte de tanta grandeza de sentimentos poéticos.
ResponderEliminarDoravante estarei seguindo seus passos.
Seu blog é um pura emoção sem fronteiras.
Beijos em seu coração de poeta
Adorei o texto. Sentido, carregado de sensibilidade, de saudade e dor, e de tantos outros ingredientes de que é feita a vida das pessoas.
ResponderEliminarQue saudade de passar aqui...
ResponderEliminarTexto de singular beleza. Emoção à flor da pele. Viajo, literalmente, por este e tantos outros textos seus.Minha reverência ao autor de peças impares.
ResponderEliminarAh! Contínuo apaziguamento das saudades que me rasga a alma
Beijos
Olá, Leonardo!
ResponderEliminarObrigada pelas gentis palavras que depositas em meu blog sempre que possível! Fico realmente lisonjeada por saber que alguém cuja alma é tão inspirada (e inspiradora) lê as revelações da minha.
Seus textos são ímpares. A beleza que eles exalam fazem mais que mostrar o seu "eu lírico". Eles sintetizam a realidade de vidas como a minha, que mesmo sem conhecê-lo consegue se fazer escrever por meio das tuas mãos.
Continue com esse trabalho belíssimo, porque a palavra é danação, mas salvação das mais gloriosas também!
Grande abraço! =D
Falar de coisas que ja sentes: arco-iris, pontes, impressões digitais marcadas a ferro e flores.
ResponderEliminarTeus escritos, também me vi neles.
Abraço imenso.
Verônica Aroucha
Depois que as palavras voam de nossa boca se materializarem-se nalgum lugar, eita: foi-se e ai daquele que fique por perto como eu...Um abraço.
ResponderEliminarFaz-me pensar com este blog...e os outros.
Que texto lindo e sensível! Adorei o seu jeito de escrever.
ResponderEliminarÉ vc mesmo que escreve?...
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