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“Nenhum medo é insuportável,
a menos que sobre tempo para pensar nele”
Arturo Pérez-Reverte
Estou aqui.
Enquanto escorre pelos azulejos a água tornada humidade desfeita,
observa-me, estou aqui,
ainda sou um pedaço do tempo que ficou,
do tempo que ficou suspenso por não te saber junto dos meus dedos
das minhas mãos
dos meus pés, pequenos e frágeis.
Enquanto a água corre na torneira que vou deixar mal fechada
enquanto aguardo o teu sorriso abraçando-me nua,
minha mão entre mão
enquanto a tua jamais,
alguma vez mais agarrará as palavras que me fogem
que me ficam
que partem vazias pela tarde,
demasiado tarde.
Entretanto
olharei o espelho para duvidar se estive ou estarei aqui.
Entretanto, abraça-me
abre-me os braços
vamos voar por esta noite, cidade fora ou adentro
vamos acordar-te dessa ausência que magoa.
enquanto aqui, onde estou
retiro os meus cabelos frágeis do ralo da banheira
enquanto a noite adormece lentamente, lá fora,
na vida desta cidade que amanhã,
na noite se adivinha,
ainda a noite começou agora.
Abre-me os braços, onde me deixaste sozinha,
aproxima-te, abraça-me, toca-me de leve com o teu olhar,
longe,
os meus seios flácidos como as minhas palavras que fogem,
a minha carne enrugada por cada momento meu,
por cada sorriso que entardeceu nos lábios, meus
e olha-me, estou aqui
sentada na borda desta banheira antiga,
solta por este cansaço antigo, também,
e diz-me, porque estou aqui,
o que posso reclamar onde me fui inteira
nos risos que me emprestaste adentro da noite,
nas tantas, e porque estou aqui,
tão pêro das mãos enterradas no meu pouco cabelo solto e longo,
e diz-me se te lembrares,
das palavras que ficaram entre os nossos ouvidos,
e se não as ouvir alguma vez mais,
tão pouca uma vez mais, então
tive medo de estar aqui, agora.
E antes,
enquanto aguardava as estações passarem uma após outra,
enquanto os dias nos tomavam por porto seguro,
corríamos, ficávamos, corpo sobre corpo horas após horas,
perdidos ou achados,
guardando as palavras para depois,
enquanto desarrumavas no meu interior os silêncios guardados,
resguardados nos braços, os meus,
abertos num breve eterno Cristo perfeito,
no meu corpo agora rasgado por rugas intermináveis,
um corpo vulgar resguardado para ti,
um corpo vulgar que já foi feito de carne macia, talvez
suave, que os teus dedos suaves percorriam sem cansaço,
os teus dedos suaves agora ausentes, tu.
Onde se resguardará agora o que restava da tua carne,
antes de a terra a tragar,
por onde andarás tu,
por onde andarei eu,
eu, que estou aqui?
[breve aparte: este texto que guardo desde 2004, finalmente foi vertido na forma que o desejava, em esboço de texto poético. Anteriormente, apelidei de Mulheres em Aguarela, o que foi um traço de prosa e que finalmente pode descansar na forma que o pretendia, assim…]
|imagem:
reprodução de foto de Lauren-Rabbit, gentilmente autorizado pela autora, à qual muito agradeço
image by Lauren-Rabbit with kind permission. Many Thanks!|
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leonardo b.,
ResponderEliminaré mesmo um caso para verso. em prosa o desenho da água escorrendo não poderia ser feito na construção das palavras.
é belíssimo e é tristíssimo,
surpreendeu-me sua capacidade de sentir as dores de uma viuvez velha e feminina.
descrever as ausências em uma carne que já não se vê em condições de refazer-se em amor é um desafio que você acaba de vencer. eu mesma como poeta e mulher, temo sinceramente a chegada de tal dia...
parabéns, poeta grandioso!
um beijo, betina.
um beijo.
Meus parabéns! Belo poema, realmente fez-me encher os olhos de lágrimas. Belíssimo blog. Continuarei acompanhando-o. Beijos em seu coração!
ResponderEliminarOI. Parabéns pelo teu blog. Gostei dos textos. Muito sofisticados, requintados! Adorei.
ResponderEliminarSou Diego Schaun, poeta e músico baiano. www.diegoschaun.blogspot.com
Espero que goste!
Abraços, boa tarde!
Leonardo,
ResponderEliminarse na Barca já desfruto, aqui me quedei, nesta viagem de horas, de rugas talvez imprevisíveis, mas forte e ao mesmo tempo de uma beleza quase etérea.
todos temos que te agradecer este momento, este espaço, que vou partilhar.
bj
Leonardo!
ResponderEliminarAqui o tempo passou para u, que amava a que a terra tragou. A repetição do "Estou aqui", para se avivar na memória uma realidade não desejada. A palavra versus o Verbo!
Maravilhoso!
Mirze
Leonardo
ResponderEliminarsobrou tempo pra pensar nos medos....rsrsrs
O tempo, e tudo que ele nostira, ou nos tiramos nós mesmo?
Ou nos deixamos enredar por outros, que vasculham nossos silêncios?
Nào há resposta...
Passeando pela blogosfera, parei aqui, encantado com sua 'casa virtual'... Sigo-o, para voltar mais vezes!
ResponderEliminarAbçs*
Um texto tenso e suave, simultaneamente. Vibrante , pois que sinestésico. Valeu a pena guardá-lo e lapidá-lo com as curvas que só o poema tem... Adorei!
ResponderEliminarMe encantan tus horizontes.
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