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Para Marcelo Buainain, com estima e admiração
As poucas margens e juncos que me separam do mundo
pertencem-me, como às águas primeiras,
aos sagrados ribeiros do ribeiro que me percorre o corpo,
como as cinzas que me sopram os mistérios onde vou adormecer.
Eu um só, trago dentro,
os muitos ventos que se escrevem dentro da terra
como traços contínuos germinados nascentes,
as nuas chuvas que compõem mares inteiros, que em mim
trago, alma, carne e osso dum mar que nunca morre.
Eu um só, trago dentro
cânticos da pedra, o canto do chão de todos os rios primeiros
salpicados nas pálidas folhas que serviram de manual ao mundo,
restos e compasso da ilha dos quatro rios, um espelho
de água, espalhado em cada átomo meu já concreto,
corpo e signo da casa inacabada, eu um só.
As poucas margens e juncos que me separam do mundo,
pertencem-me, enquanto o astro dormita na madrugada,
e em mim, um só, o pouco traço adiado pela mão do homem,
esse mau adivinho que não se sabe compor sombra entre o tudo e o nada.
Março 2011, 16
[texto inspirado na foto de Marcelo Buainain, que muito gentilmente autorizou a reprodução]
[breve aparte: excepcionalmente, este texto que edito, faço-o nos meus dois blogs de poesia em simultâneo, os quais aparentemente não fazem sentido por se haverem separado, mas ainda que autoria seja a mesma, a forma como existem e se acontecem, assentam numa ligeira diferença: na Barca dos Amantes, a palavra é prioritária e a imagem aparece sempre à posteriori, por norma um pouco antes de editar cada poema, ao qual dedico um pouco de tempo a pesquisar uma imagem para ilustrar, sem aparente “ligação” ao poema, o que o mais das vezes assim acontece; o inverso, acontece no Um horizonte nunca é definitivo, onde a palavra surge após a imagem, inspirada nela e por ela… e se o consigo, é uma questão à parte; tento-o, incondicionalmente, como sempre]
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Excelente poema, excelente imagem.
ResponderEliminarMargens que inundam a vida e o corpo invadem.
Abraço
OA.S
Incrível é que teus poemas, Leonardo, independentemente de as imagens terem vindo antes ou depois, são poemas visuais. Quando os leio, imagens raras e belíssimas desfilam à minha frente. As palavras desenham formas e têm cores, às vezes tãso antigas, tão raras.
ResponderEliminarAbraços,
Obrigado Leonardo. Agrada-me saber que uma imagem é capaz de provocar sentimentos como esses. Com fraternura, Marcelo
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarTânia, concordo consigo inteiramente! Eu costumo dizer que, quando eu conseguir ilustrar um poema de Leonardo, tal como ele aparece na minha mente, então cheguei ao meu sonho de "artista" que ainda não sou...
ResponderEliminarEsta é a magia de Leonardo... quando o lemos conseguimos viajar e sonhar acordados. Consegue que nos sintamos melhores seres em harmonia com a natureza e a vida.
Abraço
How very impressive !
ResponderEliminardaily athens
há uma margem de rio
ResponderEliminarno leito do seu olhar
um querer molhar os pés e as palavras secas
na ponta da língua
afogando as mágoas que aguadas
de instantes pescados em redes
naufragam meus olhos e pensamentos vãos.
Lindo, lindo Léo!
Meu beijo.
Las imágenes que dejas en tu poema son bellisimas, me ha gustado visitarte
ResponderEliminarUn abrazo grande
Stella
imagen y texto absolutamente simbiótico
ResponderEliminarFelicitaciones Leonardo
un abrazo y buen jueves:)
Belo espaço.
ResponderEliminarLéo, poderia jurar que o teu poema é que criou a imagem... belo, belo, belo!
ResponderEliminartanto, que diante dele me calo.
um grande abraço
não sei o que mais me tocou, mas de facto as tuas imagens levam-nos para outro espaço onde se espraiam o nós.
ResponderEliminarprefiro deixar os mistérios sobre onde vou adormecer, inócuos, adormecidos.
ResponderEliminarlindo seu blog.
um gde abç meu.